Mais um artigo sobre academia

Recebi mais um artigo sobre a academia:

LUIZ OSWALDO CARNEIRO RODRIGUES. Publicar mais, ou melhor? O tamanduá olímpico. Disponível em: <http://marcotmarcot.googlepages.com/tamandua.pdf>. Acesso em: 27 fev. 2008.

[…] Primeiro, não se pode condenar os doutores A e B por se mostrarem mais adaptados aos desafios do ambiente, numa perspectiva evolucionista, onde as condições a serem enfrentadas são as regras criadas pelo sistema de avaliação dos currículos […] [p. 8]

Esse trecho me fez pensar que esse tipo de pesquisador emprega todos esses recursos para conseguir mais verbas públicas. Será que ele é tão diferente assim dos políticos corruptos? Outros melhores momentos:

[…] o bioquímico Franklin Rumjanek, por exemplo, critica o critério de seleção para financiamento de projetos das agências de fomento à pesquisa do país porque o perfil do solicitante é levado mais em conta do que a pesquisa em si, o que gera distorções na hora da escolha […] [p. 3]

[…] no sistema de classificação utilizado, a principal qualidade de um pesquisador brasileiro é sua capacidade de publicar artigos em… inglês. O sistema de pontuação está de acordo com a concepção de que um artigo publicado em inglês é melhor do que qualquer outro publicado em português ou em qualquer outra língua […] [p. 4]

4 Comments

  1. Rafael Almeida
    Posted sexta-feira, 7/março/2008 at 3:43 am | Permalink

    Eu acho normal se exigir artigos publicados em inglês, pelo menos na área de ciência da computação. As conferencias boas são todas em inglês e seria muito incoveniente ter que aprender diversas linguas para ler cada artigo. Bem melhor ter uma lingua só para comunicar as coisas. Você não acha?

    Achei muito viagem do cara ao dizer que outros pesquisadores brasileiros não tem acesso a pesquisa escrita em inglês. O problema aqui é que esses pesquisadores não sabem falar inglês e nào estão aptos a participar da comunidade internacional. O objetivo é fazer com que esses pesquisadores também possam fazer parte, ao invés de fazer os que já fazem parte deixarem de fazer e publicar apenas artigos internos. Eu acho esses argumentos nacionalistas uma furada.

    Eu acredito que haja injustiças na hora de se destinar fundos para as pesquisas, afinal, os métodos de avaliação para se saber o que vale a pena investir não são ótimos. Entretanto, não consigo ver muitas alternativas à questão dos artigos. Eles funcionam como uma espécie de relatório de progresso das pesquisas que uma pessoa desenvolve.

    O que o artigo aí mostrou é que talvez as publicações regionais talvez devessem ser ainda menos valorizadas, uma vez que o cara ganha muitos pontos publicando em um periodico que ele mesmo aprova os artigos. Ou melhor ainda, uma vez notado que o pesquisador esta usando indevidamente sua posição como editor, o periodico deveria ser desconsiderado para pontuação. Em uma tentativa de permitir apenas periodicos sérios serem relevantes na hora de escolher a quem dar os fundos. Outro problema é a co-autoria, esse é bem complicado de resolver. É difícil impedir que alguém usando de má fé dessa maneira se beneficie do sistema. O ideal seria talvez fazer alguma espécie de fiscalização para saber se o orientador está fazendo papel de pesquisador também ou se está só sendo carregado pelos outros.

    Quanto a avaliar quem deve receber os recursos mais pelo conceito da pessoa que pelo projeto, não sei se isso é tão errado assim. Não adianta alguém fazer um projeto maravilhoso, pedir muitos recursos e não conseguir cumprir. Se a pessoa não tem nenhum artigo publicado, não tem mestrado ou doutorado, não tem histórico de boas pesquisas, fica difícil de acreditar que ele vai conseguir cumprir o projeto. E, nesse sentido, é melhor que se dê dinheiro até para um projeto pior, mas que se tem certeza que será cumprido, do que gastar dinheiro num projeto mais relevante mas que se acha que difícilmente será completado.

    Enfim, no geral o sistema não parece muito ruim, parece haver alguns errinhos nas regras de destinação de conteudos. Mas não são tão graves, é mais problemas que aparecem porque o pessoal age de má fé mesmo.

  2. malebria
    Posted sexta-feira, 7/março/2008 at 3:53 pm | Permalink

    Partindo do pressuposto que o inglês deve ser a língua de comunicação mundial, eu concordaria com você. Mas isso é um pressuposto falso; o inglês só é atualmente a língua mais utilizada em Ciência da Computação por questões históricas, assim como me parece que o Francês é em História da Filosofia ou Antropologia. E é óbvio que, quando uma língua que é falada naturalmente por parte dos pesquisadores é estabelecida como oficial, eles terão uma certa vantagem tanto para produzir o conhecimento científico quanto para ter acesso a ele. Eu acho que os pesquisadores devem publicar nas línguas que eles desejarem, e não é assim que acontece, devido à enorme pressão para que se publique em inglês. Artigos escritos em inglês não terão a mesma difusão no Brasil do que os em português, e por isso, serão menos lidos aqui. E isso, ao meu ver, não tem nada a ver com patriotismo ou nacionalismo. Esse intuito de permanecer respeitando as convenções, mesmo que injustas, é o mais típico conservadorismo injustificado. A situação só vai mudar quando as pessoas começarem a mudar suas atitudes diárias, ou seja, começarem a publicar em outras línguas. Outro argumento que poderia entrar é que não se diria a mesma coisa se as publicações fossem feitas em outras línguas, e talvez outros temas estariam sendo pesquisados. Insistir em uma língua apenas para a produção científica é desvalorizar a diversidade.

    Eu acho o anonimato a melhor forma de seleção de recursos para projetos, pois só assim os melhores projetos serão selecionados. É importante que o projeto seja terminado, e isso não tem relação com a experiência anterior do proponente, e sim com a exigência que é feita com relação ao emprego do recurso: para resolver esse problema, bastaria que simplesmente o recurso devesse ser devolvido quando o projeto não for concluído. E essa imagem colocada de um pesquisador que nunca fez nada contra um que já fez muitas coisas está longe do que aconteceria: é óbvio que os concorrentes teriam históricos parecidos, com diferenças que não influenciam tanto quanto nesse caso. Mas mesmo nesse caso ainda acho que é injusto que o inexperiente perca.

    Não entendi o que você quis dizer por questão dos artigos, mas eu acho que o problema são as revistas. Para mim eles deveriam ser disponibilizados em sítios na internet, e elas deveriam simplesmente escolher quais são os mais relevantes e publicar uma cópia escrita se quiserem. Não vejo porque não deveria ser assim.

    Não conheço o sistema muito bem para falar se ele é pouco ruim ou muito ruim, mas, pelas informações que tenho, ele parece ter muitos problemas.

  3. Rafael Almeida
    Posted quinta-feira, 13/março/2008 at 4:32 am | Permalink

    Eu não acho que o maleficio que se traz para as pessoas que não falam a lingua oficial do campo de pesquisa seja maior que o beneficio de se ter uma lingua para comunicação universal do tema. Até porque, como você mesmo disse, a lingua surge de uma questão histórica, ela é usada porque grande parte das pessoas mais importantes do campo já usam a lingua. Dessa forma, o número de pessoas prejudicadas por ter que aprender uma segunda lingua cai, tendo em vista que há muita gente que fala a lingua nativamente. Esse eu vejo que é o problema do esperanto, todo mundo tem que aprendê-la como segunda lingua, ou seja, ela prejudica todo mundo.

    Se cada pesquisador publica seus artigos em suas respectivas linguas você acaba criando bolsões de conhecimento com pouca interatividade. Não sei em que ponto isso seria positivo.

    Devolver recursos não funciona muito bem. Primeiro porque é horrível a ideia de que um cientista tenha que devolver o dinheiro porque não conseguiu produzir nada, esse tipo de erro está sujeito a acontecer e devolver o dinheiro é uma pena muito grande. É muito difícil o ciêntista conseguir levantar aquela soma de dinheiro denovo porque, se ele conseguisse sem ajuda do governo, ele provavelmente teria feito desde o inicio. Depois que, enquanto o ciêntista está usando o dinheiro outro ciêntista que iria conseguir terminar o projeto não está, dessa forma, mesmo que o dinheiro seja devolvido no final o tempo que o ciêntista com o projeto realista poderia estar desenvolvendo foi perdido.

    É claro que é importante analisar se o projeto é realista ou não. Mas acho que as credenciais dos ciêntistas devem fazer parte dessa análise. É importante que se destine os recursos para o projeto que tem melhor chances de terminar, não usar um dado potêncialmente relevante para o cálculo do risco é burrice.

    Eu estava dizendo que os artigos é uma forma razoável de se estimar a produção cientifica. Não sei o que você falou aí das revistas, mas na ACM você pode encontrar qualquer artigo da conferencia.

  4. malebria
    Posted quinta-feira, 13/março/2008 at 9:36 pm | Permalink

    O problema é que não se pode ter conhecimento do futuro, e a única forma de estimar quem é mais capaz de terminar um projeto e através da análise do passado da pessoa; e fazer essa transposição do passado para o futuro eu acho bastante injusto, pois dá mais recursos para quem já tem e menos para quem nunca teve, e perigoso, pois nada garante que o projeto será realmente bem terminado. Talvez se houvesse uma estatística fundamentando seu argumento eu até concordasse com você, mas não me parece verdadeiro intuitivamente que um pesquisador com mais publicações tem mais condição de terminar qualquer projeto do que alguém que nunca terminou; estou mais inclinado a ir na direção oposta, pois pelo que conheço de pesquisadores que publicam muito, eles nunca dão a atenção que cada publicação merece.


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